Sobre Medos e Mudanças


  Quando criança, eu adorava brincar numa penteadeira que minha mãe tinha no quarto. Era grande, espelhada e continha inúmeros tesouros: brincos, anéis, pulseiras, perfumes e uma coleção de gnomos feitos de resina. Nessa penteadeira já fui atriz de novela, princesa, mulher de negócios, repórter, fiz caras e bocas e criei teatros com os gnominhos... Enfim, tudo que a imaginação da menina de 8 anos quisesse.


  Os anos passaram, a penteadeira ficou pelo caminho e os tesouros preciosos tornaram-se simples bijuterias e cosméticos, porém a experiência lúdica e infantil de se reinventar continua muito presente em minha vida. Um cabelo diferente, uma tatuagem nova, engordar, emagrecer, experimentar sabores desconhecidos e até mesmo abandonar uma vida aparentemente "segura" para ir atrás de uma tão sonhada felicidade que eu nem sabia se encontraria, simplesmente pelo prazer da busca.

  Mudanças radicais dão um baita medo, confesso. Medão DA PORRA! Quem nunca
se viu acomodado numa situação ruim, triste e insossa por temer o desconhecido? O desconhecido é intimidante mas - usando novamente um exemplo da infância - é como quando sentíamos medo do escuro e depois, num momento qualquer, percebíamos que ele não oferecia risco nenhum além de todos que já existiam na claridade (ou nenhum).

  Na verdade, quando você se acostuma com o escuro começa a distinguir as formas e a disposição da mobília de modo diferente, mais atento, com olhos escancarados. Descobre um conforto todo especial na magia da penumbra e de quebra sente orgulho por ter vencido um desafio.

  Tive uma professora na faculdade que dizia que "o filósofo é aquele que nunca perde a capacidade de se encantar com as coisas". Essa frase me marcou tanto que nunca mais esqueci... E qual a melhor forma de manter esse encantamento do que ver o mundo com os olhos da criança que eu sei que vive guardada dentro de cada um (ainda que às vezes soterrada por tanta chatice adulta)? Se recriando, superando medos, vivendo de forma leve e divertindo-se com as pequenas coisas.

  Contas, dívidas, problemas, discussões... Tudo isso faz parte da vida e serve para que cresçamos como seres humanos. Bens
materiais são transitórios e têm um valor tão insignificante perto da infinidade de maravilhas que o universo oferece. Somos feitos de experiências, e as ruins são tão importantes quanto as boas. A diferença é a forma como lidamos com os percalços que aparecem. Aprendi que reclamar e me lamentar não resolve nada, pelo contrário! Só serve para me deixar com um inútil e nada saudável sentimento de autocomiseração.

  Para cada obstáculo existe uma beleza, um gesto de amor, uma palavra amiga e um abraço quentinho e confortável que dão uma força extra para que ele seja chutado para o cantinho e a caminhada continue firme até a próxima pedra.

  De uma coisa tenho certeza, até chegar nela vou ter me encantado com tantas coisas - um pôr do sol especialmente bonito, uma brisa fresca no rosto, o sorriso da minha filha, a batida de uma música - que vou passar com o coração tranquilo e a alma confiante!


7 comentários:

  1. Minha menina...que agora é uma mulher linda, guerreira e muito inteligente! Orgulho...vai que a vida é sua ;)

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  2. Esse texto me fez parar para refletir... sinto que a criança que fui ainda está presente e mim, e na maioria das vezes fico pensando "o que é ser adulta?". Sinceramente eu não me sinto como uma adulta e tenho certo medo de ser rsrsrs
    Muito bonito o texto, acredito fielmente que a beleza da vida se encontra nesses pequenos detalhes.
    Beijos

    https://lovelyplacee.blogspot.com.br/

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Fê, simplesmente lindo. É o que todos querem realmente, serem felizes.....

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