[LIVRO] Sal

Sal
Autora: Letícia Wierzchowski
Editora: Intrínseca
Páginas: 239
Onde comprar: AmazonSubmarino
Um farol enlouquecido deixa desamparados os homens do mar que circulam em torno da pequena e isolada ilha de La Duiva, expondo-os, todas as noites, às ameaças dos rochedos traiçoeiros. Sob sua luz vacilante, Cecília, matriarca da família Godoy, reconstitui as cicatrizes do passado com linhas e agulhas. Em dolorosa solidão, ela tece uma interminável tapeçaria em que entrelaça as sinas de Ivan, seu marido, e de seus filhos ausentes, elegendo uma cor para cada um. Muitas gerações da família de origem espanhola zelaram pelo farol, naquela ilhota perdida do sul. Ivan e Cecília têm seis filhos, que povoam a ilha com seus talentos misteriosos.


  A família Godoy sempre foi marcada pela tragédia. Formada por navegantes, seu passado está repleto de mortes prematuras e situações adversas. O ramo dos Godoy que conhecemos neste livro, suas gerações mais recentes, estabeleceu-se numa praia "ao sul do sul do continente" sul americano, onde administram um farol banhado pelo Atlântico.
  Quando Cecília - filha de uma empregada da família Godoy - e Ivan se conhecem, é amor a primeira vista e, apesar da oposição e crueldade de Doña Alba, mãe de Ivan, os dois jovens acabam ficando juntos e gerando seis filhos: Lucas, Julieta, Orfeu, as gêmeas Flora e Eva e o caçula, Tiberius.
  
  Cada um dos filhos tem uma personalidade própria e marcante. Lucas é como o pai, objetivo e cartesiano. Julieta tem uma espécie de deficiência cognitiva, vive numa cadeira de rodas e, apesar de não falar, percebe tudo ao seu redor. Orfeu é um poeta, artista sonhador. Eva é uma femme fatale; ruiva e linda, faz sucesso com os homens do povoado. Flora é uma escritora sonhadora e Tiberius, um lindo jovem que sonha em ser astrônomo, sempre observando as estrelas.
    Flora está escrevendo um romance baseado em sua própria família, e seus personagens são seus pais e irmãos. No entanto, desde o princípio a garota demonstra não ser uma narradora confiável pois, mesmo dando voz a cada um de seus personagens, nos avisa que faz o que quiser com eles, inventando e misturando as personalidades de todos que os inspiraram.
  
  O livro é dividido em três partes, sendo a primeira o relato de Flora, a segunda a viagem de Tiberius em busca de um de seus irmãos, e a terceira uma carta de Orfeu, bem como a conclusão dessa verdadeira Odisseia. Enquanto os fatos transcorrem, Cecília, tal qual Penelope, tece um enorme tapete que narra a vida de todos os seus familiares.
  O fato decisivo é que, quando um jovem professor de Cambridge (Julius Templeman) lê o livro escrito por Flora, fica obcecado pela autora e seus personagens, indo até La Duiva para conhecê-los pessoalmente. Sua chegada é como uma chuva que começa lentamente e aos poucos transforma-se numa tempestade arrasadora, trazendo profundas mudanças na vida de todos.
 Isso pode dizer alguma coisa sobre uma gente: soterrar os livros sob anos de entulhos de uma vida prática. A literatura, o sonho e a fantasia escondidos sob latas de tinta e pedaços de linóleo.
  Este romance traz muitas referências de tragédias e da mitologia gregas. Seus personagens são fortes e frágeis ao mesmo tempo, sempre à mercê da vontade "dos deuses" que, para mim, pode ser considerado como o próprio destino, cujo final cada um sempre irá de encontro, não importando o quanto tente fugir.
  Letícia é uma autora espetacular (escreveu A Casa das Sete Mulheres, eternizado na minissérie da Globo). Com uma linguagem deliciosa, evocativa e poética - "Gordas nuvens pairando quietas no céu feito vacas num pasto azul"; " ...em cujo jardim as flores borbulhavam em esfuziante alegria") - o livro é um verdadeiro deleite a ser saboreado com calma. Suas descrições do farol, que é quase uma entidade viva pairando sobre todos, e da praia são tão perfeitas e sensoriais que eu podia me ver lá, pisando na areia enquanto a água lambia meus pés feito um cão, sentir o aroma de maresia e flor de laranjeira e tudo o mais.
  Em alguns momentos, me senti como Julius Templeman lendo o livro de Flora. Virava as páginas com sofreguidão, a respiração presa no peito querendo saber o desfecho dessa saga de amores e tristezas. Me emocionei muito. Sorri e chorei neste, que já se tornou um dos meus livros favoritos do ano!
E assim, ansioso e palpitante e faminto, Julius percorreu página por página, cena por cena, subiu e desceu e viveu aquela história sem tecer juízos de elaboração estilística. Engolido por ela, deixou-se ser mastigado, sugado e lambido (...) - pág. 120 -

   
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