Ler ou Não Bukowski?

  Nos últimos dias, estive lendo Crônica de um amor louco - Ereções, ejaculações e exibicionismos - Parte I, de Charles Bukowski. São várias histórias que retratam perfeitamente o universo que permeia a obra do velho safado: bebedeiras, ressaca, mulheres, hotéis baratos e bares decadentes. 
  Quem não conhece pode até se assustar, mas fato é que a obra de Bukowski, em sua grande parte, é suja, explícita, visceral. Seus personagens não são nem um pouco glamourosos; fazem parte da classe trabalhadora, com todos os seus vícios e preconceitos, assim como o próprio autor (que além de escrever fazia trabalhos braçais pra poder sobreviver). 
  Apesar disso, Buk tem um lado lírico e muito sensível também. Acho sua poesia o máximo e sou uma grande fã de sua obra há muito tempo. Me identifico com seu lado pessimista, marginal e escrachado. Com sua despreocupação ao escrever, sem importar-se muito com regras estruturais. Bukowski era livre.
   Porém, como nada nesse mundo é perfeito, em alguns momentos seus escritos são bastante machistas, violentos até... E isso começou a me causar certo desconforto recentemente. Afinal, é possível ter ideias feministas e gostar de Bukowski? Será que minha carteirinha feminista pode ser confiscada por causa disso?!

  Isso vem perturbando minha cabeça há dias e resolvi vir aqui compartilhar esse questionamento. Vou expor alguns pontos que levei em consideração antes de chegar a uma conclusão.


  Ler com gosto os livros de Bukowski não significa que eu concorde com sua muitas vezes machista abordagem sobre as mulheres. Precisamos levar em consideração o contexto em que o autor vivia - tipicamente preconceituoso - e o fato de que seus escritos, principalmente a prosa, é um reflexo de sua vida, um retrato praticamente autobiográfico de seu dia-a-dia.
  A grande questão aqui, e não somente com os livros de Bukowski mas também com tantos outros que tratam de temas desagradáveis, é não deixar a obra tornar-se um modelo no qual baseamos nosso comportamento, e sim algo com que é possível problematizar questões sociais, como racismo, misoginia e tantas outras.

  Muitos devem conhecer, por exemplo, a história de Lolita, clássico de Nabokov. Nela, o asqueroso Humbert Humbert fica obcecado por Dolores Hazel, uma criança de 12 (doze!) anos. Para ficar mais próximo da garota, Humbert casa-se com a mãe dela e passa a assediar a menina de várias formas. O livro é muito perturbador e o que mais impressiona é que alguns críticos o classificam como "romance erótico", quando na verdade trata de um pedófilo ameaçando, coagindo e abusando de uma criança. Essa "romantização" é nociva e por isso o livro é tão controverso, porém, não significa que seja uma obra ruim - pelo contrário. É um ótimo livro, desde que não seja utilizado como modelo e sim lido com olhos críticos.

  Posso ficar horas aqui descrevendo filmes, livros, músicas e diversas formas de arte que, se formos levar em consideração seu teor politicamente incorreto, não iríamos assistir/ler/ouvir/apreciar. Porém, se nos cercarmos de coisas que refletem exatamente aquilo que pensamos e consideramos certo, como vamos amadurecer nosso senso crítico? Precisamos ter contato com outras realidades para que possamos formar uma opinião, e a melhor forma disso acontecer (pelo menos para mim) é através da literatura. Com ela, podemos nos revoltar, indignar, odiar e também amar sem sofrer consequências, repito, desde que tenhamos um olhar crítico e não engulamos tudo sem raciocinar.

  Como disse lá em cima, o velho Buk beberrão e sem vergonha não é só feito de machismo. Essa é uma pequena parte de suas facetas, que definitivamente não o define. Buk cresceu num lar violento e não passava de um cara fraco e desesperado em busca de afeto, assim com seus personagens (tanto homens quanto mulheres); que procurava destruir a ilusão do American way of life e seu eterno culto ao vencedor. Sua poesia é a parte que mais me atrai de sua obra, e está repleta de sensibilidade e até mesmo uma esperança disfarçada de indiferença.

  Fora isso, tentar viver de acordo com ideais feministas não significa que eu seja perfeita ou que certos tipos de literatura estejam proibidos para mim. Feminismo é justamente sobre liberdade. Liberdade essa que passa pela minha opção de ler tanto uma poesia suja quanto um romance água com açúcar ou um manifesto político. Tanto a "Bíblia" quanto "Deus, um Delírio".

  Diante disso, respondi para mim mesma que sim, eu posso continuar lendo todas as obras de Bukowski e não ter uma crise de consciência a cada página, e isso me deixou muito feliz! :)
  E se depois de tudo vocês ainda duvidam que existe um coraçãozinho sensível por trás dessa barba cerrada e esse olhar durão, segurem essa:

um poema de amor

(Tradução: Jorge Wanderley)
todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

  E agora, acreditam em mim?! Digam aí embaixo!
  Beijinhos e até a próxima!

6 comentários:

  1. Oi Fê,

    Ainda não li nada do Bukowski, mas pelo que ouvi sobre ele, acho que vou gostar (esse pessimismo, vida nua e crua me atrai).

    Tem muito essa discussão sobre ler livros machistas, mas tu falou tudo: ler com senso crítico. Até porque o que não falta é livro água com açúcar disfarçado em "romantismo"e que é super machista.

    Os ideais de um autor não precisam ser os nossos para a obra ser boa. O problema é seguir cegamente uma pessoa por gostar dela (e isso vale para qualquer pessoa pública).

    Acabei de ler meu primeiro livro do Tolstói em dezembro. Antes de ler tinha ouvido falar sobre como ele era machista. Gente, o pessoal não pensa no contexto histórico em que os livros são escritos? Ia me impressionar muito mais se o livro dele fosse feminista e não dissesse que a maior realização da vida de uma mulher era o parto, afinal ele escreveu o livro em 1870.

    Ótima discussão! É importante ler o que nos incomoda também, sair da zona de conforto.

    Recomenda algum livro dele específico para o primeiro contato com ele?

    Beijos,
    Rafa (ohmylivros.wordpress.com)

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    1. Oi, Rafa!
      Eu recomendo começar pelas poesias, pra ir se acostumando com o jeitão do autor. A editora 7 Letras tem uma coletânea muito boa chamada Amor é tudo que nós dissemos que não era. É dividida por períodos da produção do Bukowski e dá pra ter uma boa noção da evolução dele como escritor.
      Um beijão!

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  2. Olá! Primeira vez no seu blog. Então... nunca li nada de Bukowski e pelo que li na sua postagem acredito que não vou gostar, porque já não gosto dele. Pode ser que no futuro mude de ideia, mas no momento não sinto vontade de adentrar no mundo de Bukowski.
    Seu blog é lindo.

    Ana Paula Medeiros
    http://diario-da-leitura.blogspot.com.br

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  3. Você voltou com tudo, hein? hahaha.

    Conheci o velho Buk através do facebook. Umas páginas que eu curto, vez ou outra, postam poemas dele, mas o contato se limita a isso. Queria me aventurar na literatura dele, mas não sei por qual livro começar. Tem alguma indicação?
    Sobre isso de ler, ver e ouvir coisas que vão contra o pensamento feminista, penso o mesmo que você. Lembro que uma professora de português me disse uma vez que, pra conseguir defender o lado que a gente acredita, temos que conhecer o outro lado. Ter contato com o oposto aumenta nossa visão de mundo, sabe?
    Mas enfim, amei te ver aqui de novo e amei o texto também!

    Beijão, Fer!

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    1. Concordo muito com sua professora, Lê! Esse negócio de ficar se privando do que não condiz com o que você acredita é limitar sua capacidade de argumentação.
      Eu vou te indicar o mesmo livro que indiquei pra Rafa, no comentário lá em cima. O livro Amor é tudo que nós dissemos que não era, da editora 7 Letras. Trata-se de uma coletânea de poesias dividas por período, e você tem uma bela noção de como Buk foi transformando sua escrita ao longo do tempo, bem legal!
      Um beijão, Lê!

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