[FILME] A Onda

 A Onda (Die Welle)
2008 - Alemanha
Direção: Dennis Gansel
Drama
Em uma escola na Alemanha, alunos tem que escolher entre duas disciplinas eletivas, uma sobre anarquia e outra sobre autocracia. O professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) é escolhido para ministrar as aulas sobre autocracia. Após alguns minutos da primeira aula, Rainer decide exemplificar o tema criando uma espécie de regime totalitário na sala de aula por uma semana. O movimento é batizado como A Onda, ganha uma saudação e até um uniforme, porém, o professor não prevê que a situação pode fugir de seu controle.


 Eu fico tão, mas tão feliz quando encontro por acaso filmes bons! Sabe aquelas pérolas que de repente caem no nosso colo de forma totalmente inesperada? Pois então, às vezes o Netflix me presenteia com joias como essa.

 Rainer é um cara descolado, professor medíocre que curte punk rock e mora na beira de um lago com a namorada, também professora. Quando é escalado para dar aulas sobre autocracia ao invés de anarquia, fica bastante irritado mas, sem alternativas, resolve encarar o desafio. 

 Os primeiros minutos de sua primeira aula são fundamentais para entendermos a "essência" desse filme. Quando os alunos - cansados de discutir sobre nazismo e a busca por perdão pelos atos do passado - argumentam que um novo regime autocrático não seria possível nos tempos atuais, Rainer tem a ideia de um projeto no qual a sala fará parte de um "micro" governo totalitário por uma semana. Para isso, introduz conceitos de disciplina, postura, exige ser chamado de Herr Wenger e propõe a adoção de um uniforme (camisas brancas) e um nome (A Onda).

 Como era de se esperar, alguns alunos consideram a experiência, no mínimo, estranha e se recusam a participar do projeto. A princípio, essas recusas são vistas com naturalidade pelos demais alunos, porém, conforme eles passam a levar a "irmandade" mais a sério, qualquer aluno com opiniões contrárias passa a ser hostilizado, numa escala ascendente de intolerância e agressividade.

 É impressionante o modo como uma figura central forte e carismática consegue facilmente manipular as massas com uma naturalidade insuspeita, fazendo com que cada pessoa sinta-se parte de um todo maior, de uma comunidade especial e privilegiada. Não existe mais o indivíduo, todos são iguais dentro do grupo. Essa sensação de pertencimento torna-se muito perigosa, na medida que esbarra em carências afetivas e sociais, tornando-se um fanatismo irracional. O outro, aquele que não faz parte dessa parcela seleta de pessoas, é visto como inferior, um inimigo a ser aniquilado.

 Acho que um dos principais motivos pelo qual esse filme mexeu tanto comigo, foi o fato de se assemelhar à sociedade contemporânea e, principalmente, ao momento político que estamos vivendo no Brasil. Insatisfação generalizada com a política nacional, somados a um alto índice de desemprego e desigualdades sociais e uma ausência de ideais/objetivo são ingredientes fatais para o surgimento de extremismos, como o que temos visto ultimamente (agressões e ofensas contra pessoas com posicionamentos políticos divergentes).

 Algumas pessoas, dependendo de sua visão política, podem acusar este ou aquele regime da vida "real" como paralelos à experiência do filme, mas a verdade é que, de ambos os lados - tanto na esquerda como na direita; tanto socialistas como liberais - podemos citar exemplos desastrosos de totalitarismo: Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália, Stálin na União Soviética, e mesmo líderes mais atuais, como George Bush ou fundamentalistas religiosos.

 O final do filme é emblemático, daqueles que te deixam pensando por vários dias, e aqui deixo um trecho da fala de Wenger, quando enfim tenta desfazer o "monstro" que criou:
O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos? O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais.

Não preciso nem dizer que este é, sem dúvida, um dos meus filmes favoritos e que, se você ainda não assistiu, não sabe o que está perdendo! Aproveitem enquanto ele está disponível no Netflix, essa maravilha do mundo moderno! ;)

 Beijinhos e até a próxima.

14 comentários:

  1. Nunca vi esse filme e já estou curiosa :)
    Se virou um dos seus favoritos é porque com certeza é ótimo :)
    Adorei seu blog, já seguindo.
    Beijos,
    http://www.fabulonica.com/

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    1. Olá! Fico feliz que tenha gostado. Assista o filme sim, vale muito a pena.
      Beijinhos!

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  2. oi, oi.

    já salvei aqui o teu post pq quero ver o filme assim que surgir um tempo. ele parece muito interessante e no meu estilo. apesar do tema ser um pouco complexo, o longa parece ser beeeem interessante, além de envolver o universo escolar q eu amo. <3

    bjs!
    Não me venha com desculpas

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    1. Oi, Adriel!
      Ele pode parecer complexo sim, mas você vai ver que no fundo não é tanto assim... a narrativa é bem fluida, você vai amar!
      Beijos.

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  3. Oiii! Meu namorado me indicou o filme e eu adorei, também assisti na netflix. Realmente é um filme que nos deixa pensativos, não só com os dias de hoje mas com o futuro né?! Eu te marquei em uma Tag:
    http://www.apenasgiz.com.br/2016/08/beda-6-tag-esse-ou-esse-parte-2.html?m=1

    *Beijokas -Hellen Barros

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    1. Oi, Hellen! Obrigada pela indicação!
      Beijocas.

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  4. Meu antigo professor de história já falou tanto, mas tanto sobre esse filme. Eu cheguei a anotar o nome em alguma folha do caderno, que já se perdeu. Obrigada por me fazer lembrar dele.
    É tenso estudar e discutir sobre nazismo e esses outros regimes, né? Mas é super necessário aprender com o passado. Esse tipo de filme é bom pra mostrar que, independente do tipo, extremismos nunca são bons. Vou anotar o nome dele, em um lugar seguro dessa vez, hahaha.
    ps: Você escreve muito bem, meu deus!!!!

    Beijos :)

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    1. rs... obrigada, Lê! Tento dar meu melhor.
      Eu nunca tinha ouvido falar sobre esse filme, na verdade. Encontrei ele por acaso no Netflix e me interessei pelo tema. Foi uma grata surpresa, como já disse.
      Beijão!

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  5. Já ouvi falar sobre este filme, mas nunca tive um incentivo para assistir - até agora.

    Qualquer ato de "extremismo" é ruim, e pelo que me parece, a mensagem desse filme foca bem nisso, certo?!

    Ansiosa para assistir.
    Beijocas,
    Rebeca Grauer, O Cafofo Literário

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    1. Foca bem nisso sim, Rebeca! É muito interessante e suscita muitas reflexões sobre a sociedade em que vivemos.
      Beijos.

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  6. Esse filme é sensacional! Um dos melhores filmes que assisti esse ano. Esse filme tinha que estar passando nas escolas, para todo mundo ver como é fácil e perigoso se deixar levar por grupos. Às vezes tenho a impressão que a história está se repetindo...
    Beijos
    Rafa (ohmylivros.wordpress.com)

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    1. Poxa Rafa, você disse tudo... Eu também tenho a sensação de que seguimos em círculos e, ao invés de aprendermos com o passado, acabamos repetindo os mesmos erros. Fico muito triste ao perceber isso...
      Beijinhos.

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  7. Assisti esse filme faz pouco tempo, e não tem como negar o quão incrível é, além de render muitas discussões. A resenha está muito boa!
    Beijos
    PS: Amei seu blog <3

    http://lovelyplacee.blogspot.com.br/

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